
Figuras e Coisas
Meditações e
ensaios para viver
128 p.
Este conjunto de 52 meditações
– Figuras e Coisas –
é fruto de um lindo e emocionante encontro
na vida e na alma. Com estas meditações,
pretendemos promover um caminho. Queremos mostrar
como as experiências da Bíblia
vêm em direção às
nossas vidas. E, ao mesmo tempo, iremos indicar
como o nosso próprio dia-a-dia se abre
para a vida das pessoas de tempos bíblicos.
Em Figuras e Coisas, quisemos que houvesse
uma dimensão de figura. As figuras deveriam
estar a caminho das coisas da vida. Indo e vindo
– vem se fixar demasiado – num ou
outro aspecto. Este ir e vir é nosso
jeito. Para este caminho, rumo ao encontro,
convidamos você.
Para
contato e pedidos
use o formulário ao final desta página.
“Deus escolheu as coisas fracas”
No
natal comemoramos um transtorno, uma
certa desordem. A ordem está
em que quem mais tem mais manda. Uns mandam
outros obedecem. Os uns que mandam são
poucos, os que tem que obedecer são muitos.
Isso parece ser ordem. Em relação
a ela, natal é desordem.
Pois,
Jesus é parte dos muitos que nada tem,
que nada mandam. Sua família teve que
obedecer a um decreto do imperador romano. Este,
sim, mandava. Maria e José obedeciam.
Tinham que obedecer. Jesus nasce entre estes
que nada tem, tudo devem, a tudo tem que se
submeter.
Mas,
a este que nada parecia ter, “todos os
joelhos se dobram”. Eis a desordem! Eis
a inversão! Através da criança
Jesus, na pequena cidade de Belém, se
implanta o inverso da ordem, na qual quase todos
obedecem aos caprichos de alguns poucos.
Por
isso, natal comemora uma provocação.
Nossos olhos são provocados, abertos
a ver a vida de modo novo, de outro jeito. Já
não precisamos ver o mundo a partir do
poder. Estamos livres para vê-lo de outro
jeito: do ponto de vista do que nada é.
À luz do natal, os que nada são-
aos olhos dos poderosos deste mundo, que costumeiramente
também são nossos olhos - passam
a ser uma vocação: Deus nos chama
a ver nossa vida, a viver nossos dias a partir
dos que nada são, e em solidariedade
com os que nada tem.
Neste
sentido, natal não precisa de assistencialismo,
mas de solidariedade. Assistencialismo mantém
a ordem; é feita de cima para baixo.
Solidariedade só é possível
quando a gente se coloca ao lado de outra pessoa.
Solidariedade como que nos puxa para a igualdade.
E
esta é a melhor maneira de viver a vida,
de crer em Deus, de ver o mundo. Quem vê
o mundo de cima pra baixo, vê-o de modo
superficial, porque a tudo encherga de longe,
Quem vê a vida de baixo para cima, a tudo
experimenta melhor, porque a tudo vê em
profundidade e a partir do fundo do poço.
Isso,
por certo, é inesperado, é escandaloso!
A
obra de Deus é mesmo um escândalo,
como se lê em 1 Coríntios 1,26-29.
Afinal, nós humanos, por exemplo, nos
arrogamos a falar de coisas e de pessoas como
se estas fossem descartáveis. Imaginamos
que existem coisas e pessoas que, por nada serem
em nossa vã imaginação,
podem ser desconsideradas, feitas lixo, invisível,
desnecessário, descartável. Árvores
seriam pouco úteis. Prisioneiros seriam
não-humanos. Pobres, enfim, seriam gente
atrasada, logo descartável.
O
descarte é um dos sinais de nossos tempos.
É emblema dos tempos modernos!
Aliás,
assim também já pensava o senhor
faraó, conforme o livro do Êxodo.
Cria que aqueles escravos e escravas que estavam
à sua disposição, porque
os controlava pela força das armas, nada
mais fossem que instrumentos de trabalho, peças
descartáveis, porque em seguida substituíveis
por outros escravos e escravas. Mas, não
é assim que age nosso Deus. Ele libertou
escravas e escravos das garras do faraó.
Quem parecia descartável, em verdade,
era amigo e amiga de Deus! Imagino que o faraó
ficou muito surpreso!
Sim,
assim até se pensava a respeito de Jesus.
Cria-se ser possível descartá-lo
ao nascer em Belém, ao ser eliminado
no Gólgota, na Caveira! Pensava-se que
um crucificado estaria desautorizado por ser
de todo indigno, um nada. Mas Deus decidiu diferente.
Em Belém e na cruz do Calvário/Gólgota,
nos fez ver a seu próprio filho, a ele
mesmo. O que nada era, é tudo, é
filho do Deus eterno.
Mas,
justamente, a gente enfraquecida é escolhida
por Deus! É feita seu povo, sua comunidade.
São seus escolhidos.
Em
Deus, não há o que seja descratável,
nem na criação, na natureza, nem
entre pessoas. Uma sociedade, que crê
poder descartar pessoas, além de estar
perdendo o bom senso,
afasta-se dos caminhos de Deus. Distancia-se
de sua providência que atenta aos que
nada são.
Feliz
natal, com Jesus, aquele que nada parecia ser,
mas ao qual todo joelho se dobra.
Ó Deus, santo e triúno, louvor
a ti, porque estás em nosso meio do jeito
da manjedoura de Belém. Amplia esta tua
presença entre nós, a olhos vistos,
para que cresça nossa fé. Transtorna
nossos caminhos, para que sempre possamos encontrar-nos
naquele que leva a Belém. Em Jesus, amém.
“Irmãos, reparai, pois, na vossa
vocação: não foram chamados
muitos sábios segundo a carne, nem muitos
poderosos, nem muitos de nobre nascimento. Pelo
contrário, Deus escolheu as cousas loucas
do mundo para envergonhar os sábios e
escolheu as cousas fracas de mundo para envergonhar
os fortes.”
(1ºCoríntios 1,26-27 - tradução
de João Ferreira de Almeida)
Eucaristia
e economia
Hoje,
é domingo sem eucaristia, sem celebração.
Estamos, aqui, no salão de nossa Igreja
para ajustar nossa economia. Nessa Assembléia,
precisamos acertar coisas de nossas saídas
e entradas. Eucaristia e economia são
mesmo duas coisas muito diferentes. Parece.
Será?
Vem
aí o relatório financeiro. São
números. Fala daquilo que desembolsamos
para as atividades da Igreja.
Vem
aí eleições. São
votos. Jogam com nossas simpatias por pessoas
que se candidatam. Tem a ver com candidatos,
pois sem eles e elas não haveria nem
mesmo eleição.
É,
estamos querendo que a casa esteja bem organizada.
Não que estivesse desorganizada. Não,
nada de críticas a quem deixa seus cargos.
Muito pelo contrário. Só tenho
elogios. Pois, muito se empenharam. Suaram mesmo
para manter as coisas da Igreja. Estamos a por
a casa em ordem, porque aí vem novos
tempos. Vem novos anos que queremos bem aproveitar.
Vem novas visitas, por assim dizer, e daí
que é preciso arrumar a mesa, bem arrumadinha.
E
isso é economia. É por em ordem
a casa. Pois, em grego, oikos é
a casa, e nomia vem a ser a organização,
as ‘leis’ da ‘casa’.
Então, somos hoje pela manhã economistas.
Mas,
escuta, isso não seria celebração?
Não seria eucaristia? Muitos dirão
que não. Aliás, a maioria vai
falar que reza é uma coisa, dinheiro
bem outra. Vai achar que ‘celebrando’
não se está ‘economizando’.
E,
enquanto for assim, vai ser mesmo difícil!
Não vai ter nem graça! Vai ter
só desgraça.
E
o pior não é isso de ficar separando.
Já isso complica. Você sabe: não
dá de ser um sujeito em casa e outro
fora dela. Se você for assim rachado pelo
meio, vira doente. Sim, não dá
de ter uma cara na igreja, na reza, e outra
lá no emprego. Sua cara é sempre
a mesma. E se começar a ficar dividida,
começa a dar problema. O pessoal vai
dizer que você está meio assim
misturado na cabeça.
Coisa
que não liga com coisa, é mesmo
coisa de louco. Daí porque, já
de saída, economia e eucaristia são
folhas da mesma árvore. É farinha
do mesmo saco.
Tá
na cara que é assim. Ao celebrar, na
eucaristia, partimos o pão. Partilhamos
comida. Cada qual um pedacinho. Já imaginou,
se um come tudo? Seria uma eucaristia meio que
esquisita. Seria ridículo, se o pastor
sozinho se adonasse do pão, comesse-o
inteirinho, e, depois, convidasse: ‘venham
que tudo está preparado’. Haveria
risada. Haveria protesto. Diriam: ‘o pastor
não tá bem ligado’. Viu:
eucaristia é um modo da economia. Se
não comemos o pão, assim na partilha,
vai ser o fim.
Mas,
isso até que nem é que não
é o mais complicado. Basta ler um pouco
aí pela Bíblia e você já
vê que as coisas de Deus andam misturadas
mesmo nas coisas de vida da gente. Você
logo vai perceber que eucaristia e economia
foram um belo parzinho.
Complica
mesmo, quando a gente se dá conta das
contas de Deus, de sua economia. Seu tema é
o pão. Que coisa tão simples!
Ele, Deus, está sempre de olho é
mesmo nesse pão, no pãozinho:
é pão na eucaristia. É
pão no Pai Nosso. É pão
nas multiplicações. É pão
e pão. Até parece coisa meio que
primitiva essa economia de Deus.
Irrita.
Ah, atrapalha porque essa ‘coisinha’
do pãozinho não dá assunto
para o “momento econômico”
ou para o “caderno de economia”.
Lá não fala de pão. Fala
mesmo é de bolsa e de dólar e
dessas grandes coisas. Pão, meu irmão,
lá não tem.
E,
aí, complica. Irrita. Agita.
Na
favela, aí pertinho da Igreja, se luta
pelo pão. Ah, se luta, e como. Todo dia
batem à nossa porta. Pão é
o que mais se quer. É o grito pela eucaristia,
pela economia de Deus, essa economia das pequenas
coisas que são, em verdade, as grandes.
Enfim,
Deus é mesmo economista. É que
Ele é economista das pequenas coisas.
“O
pão nosso de cada dia dá-nos hoje.”
Isso é economia? Isso é oração?
Isso é eucaristia? Diga-me!
Deus, tu que nos amas pelo pão de cada
dia, dá que todos o tenham. Abre nossos
corações e nossas mãos
para que não só queiramos pão
para nós, em nossa casa, mas em cada
casa. Fortalece nossas vidas para que não
só queiramos dedicar-nos a nós
mesmos. Em Jesus, Mem.
“E Jesus replicou: ‘Quantos Paes
tendes? Ide ver!’ E tendo-se informado,
lhe disseram: ‘Cinco pães e dois
peixes’. Então, lhes mandou que
os fizessem todos acomodar-se em grupos, sobre
a verde relva; e se sentaram no chão
em grupos de cem e de cinqüenta.”
(Marcos 6,38-40- tradução dos
Irmãos de Taizé)
Contatos e pedidos para milton.schwantes@metodista.br
ou utilize o formulário abaixo.
..........................................SUBIR