Utopia
- o milagre da vida
A
utopia é tão real como irrealizável.
Real,
enquanto toda a ilusão que abriga o coração
humano é uma força que o impulsiona
a atuar; irrealizável, enquanto esse
horizonte, imaginário ou racional que
pretendemos alcançar, se distancia sempre
que tentamos nos aproximar dele.
Se
inalcançável, e por tal irrealizável,
é esse ponto luminoso da vida ou da história
que origina nossos desejos e atuações,
absolutamente real, com suas bondades e maldades;
é, por sua vez, o caminho que percorremos
em sua busca.
Ainda
que o homem, como Ícaro, querendo alcançar
um céu ausente, caia finalmente com as
asas destroçadas, restará o traço
de seu vôo e a luz do olhar sobre o vazio;
ou seja, a história do seu esforço.
Pois,
que outra coisa senão uma esperança
infinita é o ser humano, a vida e a história?
Se
não é possível alcançar
o horizonte, é sim possível trilhar
o caminho; ou, melhor ainda, só é
possível construir a realidade do caminho
(a história) quando se vai em busca de
um horizonte de infinita longitude.
*
As
utopias e os sonhos são parte da história,
assim como o são as estruturas econômicas
e as relações sociais de produção,
pois não podemos esquecer que na origem
de toda a realidade há sempre um sonho
e na raiz de toda a luta, uma utopia.
*
É
necessário construir um horizonte comum
no qual se integrem a experiência e a
esperança, a ideologia e a utopia, o
passado e o futuro; e, também, é
necessário construir as intermediações
que tornam possível passar de uma à
outra.
*
Utópico
é o que está fora do topos, é
lugar que não existe, o não-lugar.
A
utopia é a busca desse lugar inexistente.
Utopia,
território sem fronteiras.
*
O
fim da utopia é o fim do desejo, da ilusão,
da esperança, enfim, da vida.
Por
isso, enquanto houver vida, ainda que seja como
leve e breve rumor de anseios adormecidos, haverá
utopia.
O
que equivale a dizer que enquanto houver utopia,
enquanto o homem for eterno perseguidor de horizontes,
brotará sempre como um sonhou, ou uma
flor, o milagre da vida.
(Extraído
do livro “Meditações –
máximas – mínimas”,
de Alejandro Serrano Caldera, Editora Nova Harmonia)